Entre alguns grupos cristãos tornou-se comum afirmar que o vinho produzido por Jesus nas bodas de Caná não era vinho fermentado, mas apenas suco de uva. Essa interpretação, porém, não resiste a uma análise cuidadosa da Bíblia, da língua original do Novo Testamento, da cultura judaica e da tradição cristã. Quando todos esses elementos são considerados em conjunto, a conclusão mais natural é que o vinho produzido por Cristo era verdadeiramente vinho fermentado, embora seu uso, como ensina toda a Escritura, estivesse associado à moderação e nunca à embriaguez.


O primeiro argumento encontra-se nas próprias palavras do mestre-sala em João 2,10: "Todo homem serve primeiro o vinho bom e, quando os convidados já beberam bastante, serve então o inferior; tu, porém, guardaste o vinho bom até agora." A expressão "quando os convidados já beberam bastante" traduz o verbo grego methý? (?????), que significa literalmente "embriagar-se", "ficar sob efeito do vinho". Esse verbo aparece em diversos léxicos do grego do Novo Testamento com esse significado e é utilizado em outras passagens bíblicas para indicar embriaguez. O comentário do mestre-sala só faz sentido porque o vinho servido possuía álcool. Se fosse apenas suco de uva, não haveria motivo para dizer que, depois de terem bebido muito, os convidados receberiam um vinho de qualidade inferior. A observação pressupõe precisamente a existência do efeito natural do vinho fermentado.


Outro ponto decisivo é a palavra utilizada por São João. O evangelista emprega o termo grego oinos (?????), a palavra comum para vinho em toda a literatura grega e na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento. Essa mesma palavra aparece em Gênesis 9,21, quando se afirma que Noé "bebeu do vinho e embriagou-se". Evidentemente, trata-se de vinho fermentado. Também em Provérbios 23,31-32, onde se adverte contra os perigos do vinho, o termo utilizado é igualmente oinos. Portanto, quando João fala que Jesus transformou água em oinos, utiliza exatamente a palavra empregada para designar vinho capaz de provocar embriaguez quando consumido em excesso. Não existe qualquer indicação no texto de que o significado devesse ser alterado apenas nesse episódio.


A própria realidade histórica do século I confirma essa interpretação. O vinho fazia parte da alimentação diária dos judeus e era utilizado nas refeições, nas festas familiares, nas celebrações religiosas, na Páscoa e nas ofertas do Templo. Frequentemente ele era misturado com água para reduzir sua concentração alcoólica, tornando-se mais adequado ao consumo cotidiano, mas isso não eliminava sua fermentação. Além disso, antes da existência de técnicas modernas de refrigeração e pasteurização, o suco de uva começava a fermentar naturalmente poucos dias após a colheita. Preservar suco de uva durante meses era extremamente difícil e incomum. O método normal de conservação consistia justamente em permitir sua fermentação. Assim, quando a Bíblia fala de vinho, fala do produto naturalmente fermentado.


É igualmente importante observar que a Escritura nunca condena o vinho em si, mas condena repetidamente a embriaguez. São Paulo escreve em Efésios 5,18: "Não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito." A proibição recai sobre o excesso, não sobre o consumo moderado. O mesmo apóstolo recomenda a Timóteo: "Não continues a beber só água; usa um pouco de vinho por causa do teu estômago e de tuas frequentes enfermidades" (1Tm 5,23). Se todo vinho fosse moralmente ilícito, Paulo jamais faria tal recomendação a um bispo da Igreja.


O próprio Jesus também fornece um testemunho importante. Em Mateus 11,19, Ele afirma: "Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis um glutão e um beberrão." Evidentemente, a acusação era injusta, pois Cristo jamais foi intemperante. Contudo, essa crítica só fazia sentido porque Jesus realmente participava das refeições comuns de seu povo e consumia vinho como qualquer judeu observante. Se bebesse apenas suco de uva, dificilmente seus adversários o chamariam de "beberrão".


O contexto do milagre também favorece essa interpretação. Jesus produziu aproximadamente seiscentos litros de vinho de excelente qualidade. Esse milagre manifesta a abundância dos tempos messiânicos anunciada pelos profetas. Amós 9,13, por exemplo, descreve a era da salvação afirmando que "os montes destilarão vinho". João apresenta Cristo como aquele que realiza essas promessas. O mestre-sala não elogia uma bebida diferente daquela servida na festa; ele reconhece que aquele vinho era extraordinariamente superior ao anteriormente oferecido.


A interpretação histórica da Igreja segue exatamente essa compreensão. Os Padres da Igreja jamais ensinaram que em Caná Jesus produziu simples suco de uva. Santo Agostinho observa que Cristo apenas realizou instantaneamente aquilo que Deus faz continuamente na natureza ao transformar, por meio da videira, a água absorvida pela planta em vinho. São João Crisóstomo também comenta que o milagre manifesta a divindade de Cristo precisamente pela excelência do vinho produzido. Em toda a tradição patrística não há uma corrente relevante que interprete esse episódio como produção de suco de uva.


Além disso, a própria prática litúrgica da Igreja confirma essa leitura. Desde os tempos apostólicos, a celebração da Eucaristia utiliza vinho verdadeiro. O Código de Direito Canônico e as normas litúrgicas determinam que a matéria válida do sacramento seja vinho natural, proveniente da uva e não corrompido. Essa prática ininterrupta demonstra como a Igreja sempre compreendeu o vinho mencionado nas Escrituras.


Diante de todas essas evidências, a conclusão é clara. O termo utilizado por João significa vinho, o comentário do mestre-sala pressupõe os efeitos próprios do vinho fermentado, a cultura judaica conhecia e utilizava vinho alcoólico, a Bíblia condena a embriaguez, mas permite o uso moderado do vinho, Jesus foi acusado de beber vinho justamente porque participava normalmente das refeições, os Padres da Igreja interpretaram Caná como produção de vinho verdadeiro e a própria tradição litúrgica cristã utiliza vinho fermentado desde o início. Portanto, a tese de que Jesus transformou água apenas em suco de uva não encontra apoio consistente na Escritura, na língua original, na história nem na tradição cristã. O milagre de Caná apresenta Cristo produzindo vinho verdadeiro, excelente em qualidade, como sinal da alegria e da abundância do Reino de Deus, sem que isso represente qualquer aprovação da embriaguez, sempre condenada pela Palavra de Deus.

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