A chamada Lactação de São Bernardo é uma das tradições mais curiosas — e ao mesmo tempo mais mal interpretadas — da espiritualidade católica medieval. Trata-se de um relato devocional que envolve São Bernardo de Claraval e a Virgem Maria, amplamente difundido na arte e na piedade popular, mas que exige uma leitura correta para não cair em caricaturas ou críticas superficiais.
A história, tal como chegou até nós, não aparece nos escritos autênticos de São Bernardo, mas em tradições hagiográficas posteriores, sobretudo entre os séculos XIII e XV. Segundo esses relatos, Bernardo estaria em oração diante de uma imagem de Nossa Senhora — em algumas versões, recitando a súplica “Monstra te esse Matrem” — quando, de forma milagrosa, a imagem teria ganhado vida e um jato de leite teria sido direcionado aos seus lábios. Esse gesto, altamente simbólico, foi interpretado como uma comunicação de graça, sabedoria e intimidade espiritual com Maria.
Algumas versões da tradição vão além e afirmam que São Bernardo padecia de uma enfermidade — frequentemente associada à fraqueza física intensa ou problemas oculares — e que, após esse episódio, teria experimentado cura ou fortalecimento. No entanto, aqui é necessário um rigor histórico: não há fontes contemporâneas ao santo que confirmem esse milagre. Trata-se de um desenvolvimento posterior da devoção, que, como muitas narrativas medievais, procura expressar verdades espirituais por meio de imagens sensíveis e impactantes.
E aqui está o ponto central que precisa ser compreendido: essa narrativa é simbólica, não biológica. Na linguagem da espiritualidade cristã, especialmente na tradição medieval, o “leite” é um símbolo clássico da doutrina e da graça divina. A própria Sagrada Escritura utiliza essa imagem quando diz: “Como crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual” (1Pd 2,2), ou ainda: “Eu vos dei leite, não alimento sólido” (1Cor 3,2). Portanto, o que a tradição da Lactação de São Bernardo comunica é que ele foi alimentado espiritualmente pela graça de Deus, recebida de modo particular na sua relação com Maria.
Essa interpretação encontra eco na própria missão de Maria na economia da salvação: ela não é a fonte da graça, mas aquela que conduz a Cristo, que é a fonte. Ao longo da tradição católica, Maria é vista como Mãe espiritual dos fiéis, aquela que, por sua intercessão, coopera para que a graça de Cristo chegue às almas. A imagem da lactação, portanto, longe de qualquer leitura literalista, expressa essa mediação materna em chave profundamente teológica.
Do ponto de vista artístico, essa tradição se tornou extremamente popular. A cena da Lactatio Bernardi foi amplamente representada em pinturas e afrescos, especialmente no contexto da iconografia medieval conhecida como Maria lactans, na qual a Virgem é retratada amamentando o Menino Jesus. Essa iconografia não tinha apenas um caráter devocional, mas também doutrinal, pois reforçava a verdadeira humanidade de Cristo e a realidade da maternidade de Maria.
Entretanto, é absolutamente fundamental afirmar com clareza: a Lactação de São Bernardo não é doutrina da Igreja. Não está no Catecismo, não foi definida por nenhum Concílio, nem faz parte do depósito da fé. Trata-se de uma devoção, uma tradição piedosa que pode ser acolhida como expressão simbólica, mas que não obriga a crença dos fiéis. A Igreja, com sabedoria, sempre soube distinguir entre aquilo que é essencial à fé e aquilo que pertence ao campo legítimo da espiritualidade e da cultura cristã.
Por fim, é impossível falar desse tema sem recordar a grandeza de São Bernardo. Vivendo no século XII (1090–1153), ele foi monge cisterciense, abade de Claraval e Doutor da Igreja, exercendo enorme influência espiritual e teológica em seu tempo. Sua devoção mariana foi tão profunda que ele é considerado um dos maiores mariólogos da tradição cristã medieval. Seus sermões e escritos ajudaram a moldar a compreensão da maternidade espiritual de Maria e sua relação com a vida da Igreja.
Assim, ao olhar para a tradição da Lactação de São Bernardo, o cristão não deve se deter em uma leitura literal ou sensacionalista, mas compreender o seu verdadeiro significado: uma expressão da riqueza simbólica da fé, que aponta para uma realidade maior — a graça de Cristo, que alimenta a alma, e o papel materno de Maria na condução dos fiéis a essa graça.
PS: Nesse dia de São Bernardo, peço a Deus a minha cura sobre COVID, hoje ainda com sintomas peço a Graça de espiritualmente receber alento de Nosso Senhor Jesus Cristo e também que esse alento chegue a todos os enfermos.
